Scarlett Johansson tem em filme menor seu melhor trabalho – Cinefilia com Vinícius Lemos

Scarlett Johansson é hoje um das 10 maiores atrizes em atividade no Cinema. A história da moça de 32 anos (até novembro, quando faz 33) é uma verdadeira história de sucesso entre o cinema independente americano e o mainstream. Vê-la como a Vingadora Viúva Negra ou mesmo a andróide Major no atualmente em cartaz A Vigilante do Amanhã é quase irônico quando pensamos que sua carreira ainda tem em um filme que custou R$ 4 milhões, seu melhor trabalho. Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, lançado em 2003.

Distanciamento é tema da vida

Quantos filmes falam sobre a solidão? Centenas, certo? Então vou me ater ao trabalho de Sofia e Scarlett – e o ótimo Bill Murray, que fecha o trio-base do longa. A história da garota Charlotte, separada afetivamente de seu marido, que encontra o velho ator Bob Harris, também longe de sua esposa, é de arrepiar qualquer um em suas cenas mais sutis. Até mesmo a trilha sonora joga com essa solidão que parece ter encontrado um fim – ou uma pausa pelo menos. Da mesma forma que eles se tornam base um para o outro, fazendo de sua melancolia uma ligação terna, músicas como “Girls“, do grupo Death in Vegas, usada na abertura do longa, inicia-se em tons obscuros e vai ganhando força, paixão e volume até seu ápice. O clímax de Encontros e Desencontros é marcado por “Just Like Honey”, do Jesus and Mary Chain, de maneira desconcertante. Do nada você se pega com lágrimas pelo rosto. Às vezes até sem entender muito bem o motivo.

Coppola lança mão de uma sutileza incrível, criando situações de riso e choro, momentos de pena e raiva. Quando Charlotte lança seu olhar para Bob durante um karaokê, não é necessário que se diga nada, da mesma maneira que em hora alguma escutamos uma declaração de amor daquelas açucaradas ou escandalosas. A câmera se encarrega de desnudar os sentimentos dos personagens. O marido fotógrafo de Charlotte quase não é visto durante o filme, o que traz a dimensão da falta que ele faz à garota. Já da esposa de Harris só é conhecida a voz, através das inúmeras ligações que ela faz ao ator, sempre preocupada com coisas rotineiras e rasas. O fato de ainda se ter contato com a imagem de John – o cônjuge – e não de Lídia – a cônjuge – pode ser interpretado como os anos de distanciamento em que Bob vive e um possível futuro para Charlotte.

Ela está sempre só, explorando algum lugar novo. Ele anda acompanhado apenas de sua antiga fama. Quando se juntam, conseguem sorrisos mútuos. E no abraço dado no corredor de uma boate, mais uma vez, em silêncio, parecem gritar por socorro. Não existe nada carnal entre os personagens e quando Bob sucumbe ao desejo por uma cantora de jazz, uma conversa aguda durante o almoço soa como tapas nos rostos de ambos. Traição não é termo a ser usado. Talvez medo. Temem, quem sabe, um fim precoce.

E a câmera que acompanha de forma tão intrusiva o que se passa com aquelas duas pessoas solitárias o filme todo, nos minutos derradeiros simplesmente ignora o que Harris diz ao ouvido de Charlotte. Certos momentos são íntimos demais para serem revelados.

Vinícius Lemos é jornalista e cinéfilo por natureza

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