Remédio vicia? – Saúde Mental com Dângela Lassi

Um dos grandes entraves ao tratamento psiquiátrico é o medo de “viciar” e “depender” das medicações. Certa vez em uma unidade de saúde ouvi dois funcionários conversando, e um disse: “Eu não tomo remédio, porque depois que se toma um, toma vários!”, ao que o outro respondeu: “É verdade! Meu vizinho começou tomando um e agora já toma três!”. Mesmo alguns dos pacientes que já superaram o preconceito e iniciaram uso de remédios no meio do tratamento resolvem parar alguns dias para não “viciarem”. Este é um enorme problema com impacto muito negativo na saúde mental e na melhora do paciente.

Dependência química é o uso descontrolado de uma substância com repercussão negativa na vida de um indivíduo. Algumas medicações psiquiátricas têm potencial de abuso, ou seja, se utilizadas de forma descontrolada, há o risco de dependência. Estas medicações, no entanto, quando bem indicadas e com uso controlado pelo médico, apenas exerce seu papel fundamental: controle de sintomas. Na grande maioria das medicações psiquiátricas não há sequer este potencial de abuso. Portanto, o tratamento farmacológico deve ser sempre supervisionado pelo médico para que seja alcançada a melhora dos sintomas de forma saudável, excluindo ou minimizando as consequências negativas do uso.

Os tratamentos psiquiátricos em geral são tratamentos longos, que duram de semanas a meses, alguns por tempo indeterminado. Algumas medicações têm início rápido, outras demoram algumas semanas até que se notem seus efeitos terapêuticos. Quando uma medicação é indicada é porque o benefício do tratamento impacta mais que o incômodo de uso da medicação por longo tempo ou mesmo o risco de eventuais efeitos colaterais, estes muito bem manejados com acompanhamento adequado.

É extremamente positivo o impacto do uso de medicações, quando bem indicadas, no tratamento dos pacientes com transtorno psiquiátrico. O benefício supera em muito o desconforto do uso diário da medicação, pois o paciente retorna a viver com conforto e vê na medicação um aliado em seu tratamento. Quando se nota que há possibilidade de melhora da qualidade de vida com tratamento, seja com medicação, com terapias ou mudança no estilo de vida, a tendência é de buscar tratamento para outros sintomas ou doenças: ou seja, tratamento busca sim tratamento! E, nesse caso, uma medicação trazer outra de forma alguma é algo negativo, ao contrário do que a fala dos funcionários do início do texto sugere. É apenas  a busca de melhora da saúde.

 

Dângela Lassi é médica psiquiatra e colunista do Gazeta de Uberlândia

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