Quais os limites da dependência?

A psiquiatra Dângela Lassi analisa como a instrumentalização das drogas pode ser perigosa para usuários

Desde a antiguidade existem relatos de uso de entorpecentes em diversas situações sociais, sejam festividades religiosas, eventos comemorativos, auxílio a doenças ou o simples uso recreativo. Recorrer às drogas pela busca por sensações prazerosas é algo tão comum ao ser humano que em vários países, no Brasil inclusive, isto é socialmente aceito e até regulamentado, como o álcool, chegando a ser classificado como droga lícita. O álcool é a droga mais consumida em todo o mundo. A caminho de discussões que envolvem descriminalização e legalização de uso está a maconha, droga ilícita com consumo crescente em nosso país.

As drogas podem representar, para muitos, diversão ou distração, mas para outros tantos podem ser sinônimo de desequilíbrio e perdas sociais, pessoais e familiares. No Brasil, segundo dados coletados em último levantamento epidemiológico de 2005 pela Secretaria Nacional Antidrogas, 75% das pessoas pesquisadas já fizeram uso de álcool pelo menos uma vez na vida e 12,3% das pessoas pesquisadas preenchiam critérios para dependência. O fato de preencher estes critérios significa que o usuário perdeu a liberdade de viver sem a droga, perdeu o controle sobre seus desejos e até mesmo sobre seu prazer. Com isto vêm os problemas de saúde, os desajustes familiares, a perda das relações pessoais, a dificuldade de trabalhar e de se manter.

Lícitas ou ilícitas, as drogas têm um potencial de serem utilizadas de forma abusiva e gerarem um enorme prejuízo na vida do indivíduo e daqueles com quem convive. Independentemente da questão legal, pois apesar de proibidas muitas drogas são bem aceitas em determinados grupos sociais, é de extrema importância que se tenha uma visão crítica sobre o uso, que ultrapasse a simples questão do preconceito das drogas ilícitas como a maconha, ou a banalização das já lícitas como álcool e cigarro.

É necessário que se faça uma reflexão sobre o impacto da droga na vida do usuário, em sua saúde física, psíquica e social, e o quanto o uso é realmente uma escolha consciente ou uma necessidade desenvolvida. Nesta análise, também deve se observar o quanto o uso está relacionado ao que se chama de instrumentalização da droga, ou seja, torná-la um objeto para tratar transtornos ansiosos, depressivos ou para ocupar o lugar de algum hábito saudável.

Em consequência do descontrole da própria vida e do uso de drogas, os usuários que já são dependentes ou que assumem um padrão de uso nocivo tem dificuldade de reconhecer o problema. Por isso o acolhimento dos familiares e amigos é tão importante para que se inicie a busca por ajuda: o carinho e cuidado aproximam muito mais do que o preconceito e o desafeto.

 

Dângela Lassi
Médica Psiquiatra

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