#OscarNotSoWhite? Veremos, mas 2017 foi importante – Cinefilia com Vinícius Lemos

Provavelmente você já sabe que o filme Moonlight – Sob A Luz do Luar foi o vencedor do principal prêmio do Oscar em 2017. Seria ele um produto das mudanças organizadas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas após os protestos contra a falta de mulheres e minorias na premiação mais conhecida do Cinema do ano passado? Qualquer que seja a resposta, sim ou não, pelo menos a curto prazo é um bom começo.

Em 2016, um protesto do diretor Spike Lee contra os indicados ao Oscar gerou um efeito em massa que culminou no boicote de celebridades ao prêmio, como Will Smith e sua esposa Jada Pinkett Smith. O protesto foi ainda mais feroz na internet e popularizou a hashtag #OscarSoWhite. A resposta da presidência da instituição que promove o Oscar foi rápida e mudanças foram anunciadas.

São movimentos graduais e que devem acontecer até 2020, como dobrar o número de mulheres e minorias nesse período. Dentro de um contexto em que 94% dos integrantes da Academia eram brancos e 77% do sexo masculino, Moonlight parece um resultado rápido. Fora que para tentar reduzir a média de idade entre os votantes, que era superior a 60 anos, haverá uma validade no status dos votantes de 10 anos. A renovação desse direito só acontecerá se o membro se mantiver ativo na indústria na última década. Aqueles com mais de 30 anos de filiação receberão o direito vitalício de votar. Isso também vale para aqueles que conseguirem uma indicação ao Oscar.

Além, óbvio, do prêmio principal, a diversidade em 2017, pelo menos em relação à quantidade de indicados (e vencedores) negros, mulheres e até muçulmanos foi sensível em relação a 2016. Entre os 20 atores indicados, seis eram negros. Das quatro categorias, duas foram vencidas por eles, incluindo o mulçumano Mahershala Ali. No ano anterior, não houve atores negros indicados. Vale salientar o segundo prêmio de Melhor Filme Estrangeiro entregue ao diretor iraniano Asghar Farhadi, por O Apartamento.

Moonlight

Mas e o grande vencedor da noite, teria sido um “efeito da problematização do Oscar” ou tem qualidades para tal? Particularmente não acho o melhor filme entre os indicados nem o melhor de 2016. Mas quem disse que o Oscar premia mesmo os melhores filmes? Nem os melhores americanos, muitas vezes, estão por lá. Contudo ignorar as qualidades e a importância de Moonlight é ser limitado. Em meio a uma onda conservadora pela qual boa parte do mundo passa, o longa trata de homossexualidade e homofobia, pobreza, bullying e drogas entre o poético e a crueza. Com qualidade, acima de tudo, tanto no elenco quanto na direção e no próprio texto. Talvez para atingir o posto que conseguiu, a grande reação de 2016 tenha ajudado a jogar luz sob o tipo de filme que está sendo feito fora das mãos de velhos medalhões, que estão sempre entre os indicados e nem merecidamente – lembre-se, Ponte de Espiões e Cavalo de Guerra, dois filmes menores de Steven Spielberg, foram indicados nos últimos sete anos e nem estou contando Lincoln, que teve seus méritos.

A gafe da entrega do prêmio a Moonlight depois de anunciarem a vitória de La La Land, tido erroneamente por muitos como proposital para aumentar a audiência da festa, parece mesmo um reflexo irônico do processo lento e gradual da Academia em abrir os olhos. Não, não é certo que o futuro do Oscar seja menos conservador. Mas a primeira amostra de que existem mudanças a caminho foi a escolha de um filme forte e com voz, além de ser Cinema pra valer – e bem longe da consagrada “fórmula do Oscar”.

Share on Facebook0Tweet about this on Twitter0Share on Google+0Share on LinkedIn0Print this page