Fragmentado é o que Shyamalan precisava – Cinefilia com Vinícius Lemos

M. Night Shyamalan tem 12 longas-metragens e uma história em Hollywood comparável a uma montanha russa, com vales e picos entre a adrenalina de filmes tensos como O Sexto Sentido e pasmaceiras que não despertam nada como Fim dos Tempos. Em cartaz com Fragmentado, um sucesso de bilheteria quase que completamente inesperado, o diretor indiano radicado nos Estados Unidos não é unanimidade, mas certamente merece ser discutido.

Ao custo de US$ 9 milhões, seu filme mais recente até agora faturou incríveis US$ 265 milhões pelo mundo. Alguém duvida que ele tenha carreira longa no mundo do Cinema? Muitos já tiveram depois de um fracasso em 2006. Foi nesse ano que ele fez seu pior filme, A Dama na Água. O longa metido a besta e um tipo de resposta a seus antigos financiadores (Disney) e aos críticos, também não teve apoio popular. Custou US$ 70 milhões e fez US$ 72 milhões. Era apenas o anúncio de uma fase crítica na vida do diretor que escreve todos os seus roteiros.

Quatro anos depois ele seria o grande vencedor do Framboesa de Ouro por O Últimos Mestre do Ar (2010) com seu primeiro roteiro não-original. Aquela poderia ter sido a pá de cal da carreira, já que o orçamento de US$ 150 milhões foi o maior com o qual ele trabalhou e mesmo sendo a adaptação de um popular desenho, Avatar, ninguém deu muita bola. Bem, os críticos deram e malharam o blockbuster.

Manoj (o M. de seu nome) ainda fez outra grande produção em 2013, After Earth – Depois da Terra. Mas ao que parece, foi apenas um diretor contratado para a aventura de ficção-científica cuja história foi bolada por Will Smith. Segundo longa de Shyamalan com efeitos visuais massivos, Depois da Terra era, no fim das contas, uma tentativa de Smith de colocar seu filho Jaden no radar de Hollywood pra valer. Falhou em uma produção boba. Não servia à ação, nem à aventura muito menos ao suspense – nem ao pobre menino rico Jaden Smith.

Aliás, depois de fazer duas comédias dramáticas nos anos 90 (Praying With Anger, de 1992, e Olhos Abertos, de 1998), foi na virada do século que Shyamalan fincou seus pés no Cinema mundial por meio do redondo e medonho O Sexto Sentido. De uma hora pra outra ele se transformou no herdeiro de Steven Spielberg e de Alfred Hitchcock ao mesmo tempo. A empolgação quase se justificava quando você revê o filme em que o pequeno Haley Joel Osment via pessoas mortas. Entrecortada de um terror legítimo, a trama tinha aquele final inesperado que se transformou em uma marca e uma maldição que o assombrou o criador – todo mundo espera um plot twist do cara, o que deve ser bem chato pra um criador.

Seguiu-se a essa obra-prima o ótimo Corpo Fechado, em 2000, que havia sido vendido como outro suspense sobrenatural quando era um visionário filme sobre super-heróis e vilões – que ainda hoje é um dos melhores de um já quase gênero. Ainda em sua melhor fase, mesmo com algumas críticas, o cineasta concebeu os relevantes Sinais, de 2002, e A Vila, de 2004. O último, aliás, pode ser considerado um de seus projetos mais ambiciosos ao tratar o medo em alegoria ao momento pelo qual os Estados Unidos passava no pós 11 de setembro.

 

A volta

Depois de um período de glória e vaidade e outro de nuvens e trovoadas, M. Night parece ter entendido o quanto é melhor trabalhando com menos e exercitando sua criatividade. Foi com A Visita, em 2015, que muita gente alardeou a volta do diretor – inclusive eu. O filme usava a linguagem do found footage (aquela em que um personagem grava o filme e os demais sabem disso, tipo A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal) e ainda incluía comédia das boas em uma história que voltava a ter a virada no final.

Mandou bem, até mais que no atual Fragmentado, que chega a escorregar um pouco no ato final. Só que no caso do filme mais recente de M. Night Shyamalan, além de ter uma atuação muito, mais muito boa mesmo de James McAvoy (ele tem 23 personalidade e dá conta do recado), o diretor e roteirista criou um fan service  que nem o fã esperava. Assista com atenção até, literalmente, o último minuto e você entenderá. Mas, se puder, antes se sente em um carrinho da montanha-russa do cineasta para entender tudo. Apesar dos pesares, o cara é bom.

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