Depressão cresce 18%, segundo OMS

A psiquiatra Dângela Lassi aponta de onde vem este crescimento e o que ele representa para o indivíduo

A prevalência de depressão no mundo cresceu cerca de 18% entre o ano de 2010 e 2015, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), e tende a subir ainda mais nos próximos anos. Os números fortalecem as impressões que a sociedade como um todo já havia tido: nos consultórios os casos são mais comuns, entre amigos e familiares é cada vez mais frequente alguém que faça tratamento, no trabalho colegas e mais colegas se afastam ou perdem dias de trabalho por sintomas de depressão.

Muito se discute acerca das causas do aumento dos quadros de depressão, chegando sempre a múltiplos fatores causais. Um deles é o aumento dos diagnósticos feitos, tanto pela melhor definição dos próprios critérios diagnósticos (fruto de uma maior formalização da própria psiquiatria em si), quanto da maior conscientização da população que tende a buscar mais o tratamento. Outro fator é o real aumento de casos, e aí são inúmeras teorias que se especulam: de que a alimentação cada vez mais industrializada desencadeie mais alterações de humor; de que uso de celulares ou GPS possam alterar o funcionamento cerebral; de que o uso banalizado de algumas medicações clínicas possam induzir sintomas depressivos, etc.

As teorias formais fisiológicas e o mecanismo da depressão já foram bem estudados, e ainda continuam em estudo, mas têm dificuldade de, sozinhos, explicar este aumento crescente nos números. Outro fator, talvez o mais importante que se tem discutido, é a dificuldade da sociedade contemporânea de lidar com o sofrimento em geral. Viver em um mundo globalizado, tão cheio de informações que vêm e vão de forma sempre rápida, não permite que se perca tempo lidando com sofrimento. É o momento em que o modo rápido, eficaz e objetivo com que os computadores foram programados para trabalhar contrasta com a necessidade de um tempo maior, de menor rendimento e mais subjetivo que o ser humano precisa para processar algumas informações e perdas.

Perder um familiar, perder um emprego, sofrer algum trauma, romper um relacionamento nunca expôs tanto a fragilidade humana como nos tempos atuais. Talvez esta “epidemia” de depressão possa servir para mostrar os limites subjetivos do ser humano e sua necessidade de entrar em contato com suas emoções para elaborá-las e superá-las – algo essencialmente humano, a que nenhum tipo de máquina cabe. Nesta perspectiva, o tratamento psicoterápico tem sido cada vez mais estudado e se tornado aliado indispensável no tratamento da depressão. Aproximar-se dos sentimentos e compreendê-los de forma saudável é o movimento ideal a se fazer, e não evitá-los e tentar afastá-los, já que é sim da natureza humana vivenciá-los.

 

Dângela Lassi
Médica Psiquiatra
contato: dangela.lassi@gmail.com

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