A doença do “não adoecer”

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Falar sobre saúde mental é mais do que falar de doença mental. Saúde, em seu termo mais amplo, não significa ausência de doença, mas sim, um completo bem-estar físico, mental e social. Parece até algo impossível de se alcançar, não é? Seria se entendêssemos o bem-estar como felicidade, perfeição ou algo do gênero. Por outro lado seria bem mais comum se considerássemos bem estar como equilíbrio ou mesmo adaptação.

Saúde mental, então, não seria simplesmente a não-doença ou mesmo a felicidade total. Mas sim sentir-se bem adaptado dentro das circunstâncias psíquicas e emocionais que vivenciamos. A busca tão incessante por não ficar doente, acaba por nos adoecer. Em tempos de redes sociais em que postamos os mais corriqueiros almoços, encontros familiares às vezes indesejados, o mesmo caminho diário do trabalho ou o espelho do seu elevador, vemos que há uma necessidade de parecer tudo sempre bonito e interessante. Não há espaço para o feio, para o triste e para o desânimo.

Há dias em que estamos realmente cansados. Há dias em que ficamos extremamente ansiosos para o teste do dia seguinte. Há dias em que o mais doce dos convites é uma ameaça. Dias em que perdemos alguém que amamos. Ao reconhecer que se está triste, decepcionado, magoado, com medo é que se começa o processo de entendimento e a real possibilidade de superação. Se privar deste processo, é se privar da possibilidade de superar problemas.

Nestes momentos de crise é fundamental nos permitir sentir essas sensações, mesmo as ruins, e a partir delas nos adaptar e reconstruir um novo sentido nesta nova circunstância. Este tipo de adaptação não pode ser considerado uma doença, mas sim um reequilíbrio de forças: faz parte da vida vivenciar momentos difíceis e sentí-los, como seres humanos que somos. Se não considerarmos a possibilidade de não se estar bem em alguns momentos da vida, não saberemos lidar nem com a menor das frustrações.

A partir do momento em que essa adaptação não é feita e que se passa a viver de modo prejudicial, aí sim, isto pode se tornar uma doença. Quando não conseguimos mais atingir o potencial que temos, adoecemos. Esta é a hora de procurar ajuda: quando se passa a viver em função do problema.

 

Dângela Lassi
Médica, residente de psiquiatria da Santa Casa de São Paulo
Dúvidas? Sugestões? Envie para: dangela_lassi@hotmail.com

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